
http://anatomiadumlouco.blogspot.com sempre em actualização































Na serra que olhámos
tantas vezes da nossa casa…
O sol nascia doirado
todas as manhãs
Iluminando os ramos
do eucaliptal…
despertando
a melodia das aves…
o cheiro a urze, alecrim
alfazema, madressilva,
espalhava odores
pelo ar que nos
rodeava musicado
pelo borbulhar
da nossa fonte cristalina !
…
Na serra um dia
o sol nasceu…
coberto de nuvens
que se despenharam
nas escarpas…e se feriram
abrindo veias de sangue
que salpicaram as árvores
de vermelho vivo…
Fez-se escuro
as aves emudeceram…
O cheiro da morte
caiu dentro da água
da fonte cristalina
tornando-a turva…fétida !
Era Julho…verão quente
mas um frio gelado
atingiu a nossa alma…
queimando os nossos sonhos
que se desfizeram
em cinzas a nossos pés !
Mãe


varanda de 23/07/2005 »»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» a ante câmara da MORTE
Meu amor de filho
Hoje já não estou tão zangada contigo, estou zangada sim…muito…e tu sabes com quem !
Todos aqueles que ajudaram a que te afundasses…não vão ter sossego…é com esses / essas !
Estava a ver se conseguia por fotos para embelezar isto, mas não entram…ou porque estarei mais nervosa, ou porque nem sempre dá…mas também…como já disse, estou-me completamente a borrifar para a beleza…e nem poemas consigo fazer.
Acabei de chegar lá, do tribunal onde fui buscar o relatório da autópsia, nada de drogas, apenas a mestela que comeste ao pequeno almoço em amena cavaqueira com a tua companheira por volta das 5 horas (segundo ela) e depois decidiste encostar a pistola á cabeça
…”a morte foi devida a laceração traumática do cérebro, por bala. As lesões são a causa da morte. O disparo foi feito da esquerda para a direita, na horizontal. Bala alojada junto á tábua do parietal esquerdo. Orifício com 1 cm de diâmetro na região frontoparietal direita distando cerca de 5 cm do pavilhão auricular direito. Orla de contusão irregular.”…
Aí está meu filho, a causa da morte. Depois há outros pormenores que indicam que eras um individuo saudável e forte mas que não vale a pena mencionar, apenas o refiro porque também já me vieram perguntar se terias alguma doença física, tipo cancro ou sida…
Então, aqui fica mais um registo “sem ser bonito”.
A quem interessar fiz declarações por escrito, nomeadamente referi todos os números de cartões de telefone 10 ou 15, em postiks colados ao teu monitor, julgo que nem tu os sabias de cor…por isso os escreveste. Como metade da vida do ser humano de hoje é passada ao telemóvel e ao computador, juntamente, com alguma matéria que entreguei…já têm muito com que se entreter.
Só quero acrescentar Hugo, que não sou a mãe coragem…a minha coragem está “nisto”. Na vontade que eu tenho de dizer a verdade, a tua vida já não devolve…mas prolonga a minha como muito bem disseste…So agora percebo o significado da frase “o melhor que souberes e puderes…mas lentamente”…quanto mais lento for…mais chances tenho de viver. Amo-te muito…muito…muito.




EU NÃO SOU A MAE CORAGEM
NÃO SOU SANTA… SÓ SOU MAE
SOU FEMEA… LUTA… FERA…TAMBEM !
SOU VENTO… TEMPESTADE… FURACÃO
SOU FERRO… AÇO… FOGO
LAVA DE VULCÃO !
EU NÃO SOU A MAE CORAGEM
NÃO SOU PAZ…SOU A GUERRA
SOU PRANTO…GRITO… TAMBEM !
SOU ÓDIO…RAIVA…SANGUE
ARMA…PÓLVORA…LAMINA DE ESPADA
TIRO DE CANHAO !
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Hugo em Sesimbra com uns amigos...30 dias antes de pôr termo a sua vida...Lembranças de uma infancia feliz? ou um gesto "produzido" para um regresso ao passado impossivel?


Abril 2005...oficialmente ainda ao serviço da empresa...eu consigo ver aqui apesar do cabelo comprido...os óculos...enfim a mudança de visual...um olhar meigo...um sorrizo...uma atitude de grande tranquilidade...terá sido a partir de Maio...o principio do fim ?















O fogo é cruel sobre a madeira
primeiro tortura-a, obrigando-a a perder
a humidade que sorveu sequiosa
e a vai queimando viva enquanto lança
em desesperado fumo, o crepitar de dor
a seiva...que era a sua própria vida.
Só no fim, em brasa, em sua morte vermelha
nenhuma gota resta na madeira leprosa.
Então o fogo desce em fracas labaredas
mantem-se rubro em fatigada raiva
e desmaia por fim em cinza branca.


LADRÕES
Sois todos ladrões! vestidos de gente honrada! Sua banda de poltrões
vara de cerdos, canalhada! Não mereceis um poema, nem uma estrofe rimada. Mereceis uma cisterna de esterco - e mais nada!
P.Hugo de Azevedo
pelos vistos há quem saiba o que eu sei...










Maria Alice Oliveira
Querido filho,
Eu tento. Estou a tentar, com todas as minhas forças…acho que sempre soubeste o que “isto” iria dar…Estou a lutar contra todos os pensamentos que me assaltam…
Não quero fazer sofrer mais ninguém...Nao sei se isto está a acontecer com as manas e o pai…e com a família toda…mas eu acho que está a ser para mim cada vez mais doloroso…
Tudo o que “apaguei” da memória…esta a voltar…como se tivesse despertado um monstro adormecido…
A imagem que mais me está a torturar é o teu rosto no dia 23 de Julho na varanda…
O monstro que eu pensava estar a dominar…está a dar conta de mim…o monstro do remorso, de não ter visto o teu sofrimento…eu digo que não vi…quero convencer-me que não vi…mas vi…
Quando a tua companheira chegou…o teu olhar, seguido do pedido para nos deixar estar sozinhos… porque é que eu a mandei sentar ao nosso lado? Queria que ela não ficasse zangada…mas eu devia ter-lhe dado um estaladão, para que ela saltasse da varanda…porque é que eu não tomei uma atitude…porque não fui como a mãe dela,
naquele dia em Leiria que ela te empurrou, por tu a defenderes?
Eu tenho que confessar-te Hugo, para mim era um “frete” ir a tua casa…Eu já não podia
com ela…claro que via o sofrimento…para que estou a dizer que não via…só queria ter tempo de arranjar uma solução…esperar que o pai melhorasse…por isso te falei na tenda de campismo e do parque…era Verão…uma solução temporária, mas dar-te-ia alguns momentos de sossego… seria o teu cantinho de meditação…o teu refugio…lá poderias ter o teu canário que eu iria tratar dele…a tua batata doce em flor…
Ali em tua casa de facto só tinhas autorização de te movimentar no quarto dos computadores…era horrível Hugo…horrível…também eu me sentiria presa naquele espaço…nada onde tu metesses a mão fora daquele quarto…ela te deixava fazer…
Eu via observava…mas a ti dizia-te o contrário...só queria que continuasses com ela…que fosse incompatibilidade do primeiro ano, todos os casais a têm…e, que depois tudo passasse…
Agora querido…já posso dizer-te…via tudo…e, continuava a dizer-te que não via nada disso…se calhar contribuí para que te questionasses se estarias louco?
Não…filho…louca estava eu…deixas-te também escrito na “tal” carta …”A minha mãe a pessoa mais importante da minha vida, pelo menos ouve-me e acredita em mim”…que vergonha Hugo…eu ouvia-te, mas não acreditava em tudo…será que me podes perdoar?
Como vou poder viver sem saber se me perdoas ou não?




8 dias antes do dia 24/7/05... a quem teria ele confessado..." que qualquer dia se matava. Que já não podia aturar isto?"...
Quem é??? Quase que não conheço o meu filho...
Com amigos em Junho 2004...(amigos que em 11 meses visitaram a sua casa uma única vez) e, segundo as palavras do próprio em www.olhares.com...raramente saía à noite...
No inico... ao morar na casa onde nunca mais vai "regressar"...
Hugo na Parede em casa da (última) ex companheira...meados de 2003

Maria Alice Oliveira




Maria Alice Oliveira


Na madrugada seguinte, entrei na tua casa sonâmbula, tonta, confusa…pareceu-me ouvir vozes...o som dum tiro abafado
por uma almofada vermelha…
Pedi à Ana k me deixasse sozinha e, e ela foi para a tua varanda
fumar…visivelmente nervosa e a tremer…penso k estaria com
medo k eu fizesse doutro modo o mesmo k tu…
Depois senti-a mais calma kuando k eu me deitei sobre a cama onde morreste…a cama k compraram para a tua “futura” cunhada,
k vinha para vossa casa de ferias em Agosto…uma cama horrível
de cor cinzenta moribunda…colei o meu ouvido à borracha da cama e no meio dos sussuros k de lá saíam senti a tua a tua presença…o teu cheiro…apeteceu-me fikar ali deitada para sempre…
Mas o k tinha ido eu lá fazer? Kuando toda a gente estava a recompor-se do choque… eu devia como toda a família estar nakele momento a chorar-te…O k me levou lá?
Agora sei k foste tu k me chamas-te…”sais-te” à pressa desta vida…muito à pressa…ainda exitas-te…mas eu não estava lá…
Entre nós fikaram coisas mal resolvidas…conversas inacabadas…
assuntos pendentes….só agora compreendo porke crias-te o meu email…porke kerias k eu apreendesse tudo de informática duma vez…a pressão k fazias para eu perceber tudo logo à primeira…
A tua vida dos últimos 6 meses está toda ali…na tua cpu, nos
telemoveis, em tudo o k kerias k fikasse comigo…dentro do cofre
pedaços de papel, meus e teus…pedaços da tua alma nobre…confiados a miseráveis papeis…
Se a tua companheira te tivesse deixado falar, no sábado 23 kuando interrompeu o dialogo de mãe e filho…ainda hj estarias cá. Mas eu devo ser condenada…a dor de te ter perdido não chega…eu devia ter respondido: a casa é tua…mas o filho é meu…e não saio daki sem ouvir o k ele tem para me dizer…Vai tu embora daki, deixa-me neste pekeno espaço sozinha com ele…ele precisa sim de desabafar com a mãe…sempre o fez!
Não o fiz…joguei o jogo dela…deixei k ela te abraçasse e beijasse…e saí derrotada…Eu e tu mais k eu…muito mais!
Agora estas numa cova enfeitada com flores, onde por vezes se ouve um grito de ave assassina cortando o momento em k sentada ao teu lado vejo o sol em finas fatias de dor, desejando k o carrasco me aplique a pena mais pesada k houver…neste mundo…e no outro…
A cama moribunda cinzenta…permanece comigo…pois foi uma oferta k a tua companheira fez questão de me oferecer…sabe-se-lá para quê?

COBRI-TE COM ESTRELAS
LUMINOSAS…
NO TEU CABELO RAIOS DE LUA
COLOQUEI…
VESTI-TE COM AS NUVENS
VAPOROSAS…
E, TODA A SALA VERMELHA
ENFEITEI…
ESMAGUEI AS FLORES MAIS
CHEIROSAS…
E, TODO O TEU CORPO
PERFUMEI…
FIZ-TE UM LEITO DE PETALAS
DE ROSAS…
ASAS BRANCAS DE ANJO
TE DEI…
FIZ-TE MIL PROMESSAS
SILENCIOSAS…
QUANDO A TEU LADO
ME DEITEI…
…
NAVEGAMOS EM AGUAS
TORMENTOSAS…
MAS O NOSSO BARCO
SEGUREI…
NESSA MADRUGADA
RADIOSA…
FEZ-SE NOITE ESCURA E,
REZEI…
COM MUITA FORÇA E FÉ
PODEROSA…
FUI CONTIGO AO CEU…E
SO EU VOLTEI !!!
Maria Alice Oliveira

A sala vermelha
Quando olho a sala vermelha, volto atrás no tempo e, vejo-me sentada junto à varanda com o estore puxado para baixo…policias e bombeiros à tua volta…mandaram retirar o pai…
Eu permaneci sentada ao fundo… todos fingiram ignorar-me…o meu olhar ausente denunciava uma mãe louca…inofensiva..alheia a tudo…
Na verdade eu estava a segui-los…apesar de ter desejado…que só o meu corpo permanecesse ali, que o resto tivesse ido contigo…não fui capaz de faze-lo…
…Eles fotografavam e começavam então os procedimentos para
verificar o tua morte…Eu fotografava tudo com os olhos atentamente…armazenando imagens…
Só na madrugada seguinte, quando me deitei de novo sobre a cama,
já sem a colcha branca que foi a envolver o teu corpo…comecei a rever
as imagens que surgiam em flashes diante dos meus olhos…
O estore corrido para a cadela não ver…se pensaste nisso…também
não querias que a mãe visse…A t’shirt que só tu e eu sabia-mos o seu
significado, mas tinha que ser vista por alguém…assim como os calções
de banho cinzentos…duas fotografias…uma deitada com a frente para baixo…a outra em pé sob esta...
A carta…a carta permanece rodeada de mistério…Tudo o que esta escrito não corresponde à realidade… tudo não…há 2 coisas verdadeiras…as discussões referidas e, o facto de eu não ter dormido lá em casa nessa noite… A carta que ficou no computador akela em que anuncias que é um bom dia para morrer começada as 4.24 h e terminada as 6.29 h…a única em que mencionas essa intenção…
Intenção??? Seria mesmo? Escreves a carta…terminas…mas entretanto vais sacando 3 filmes da net…. o que te fez decidir???
Ao escreveres a carta não estavas decidido? Não se decide morrer e
se começa um programa a sacar filmes que so termina as 8.02???
O telemóvel…falta o telemóvel…
6.40h mãe tas acordada?...6.42h já acordada? Seria eu por só responder 14 minutos depois? Ou alguém com quem falaste?
Em breve o saberei…
ENCONTREI-TE DEITADO NA CAMA K DETESTAVAS E, MTAS VEZES DORMISTE...O TEU CORPO SEMI DEITADO SOB A COLCHA BRANCA CHEIA DE ALMOFADAS VERMELHAS...AINDA HJ PERGUNTO PORKE NAO O FIZESTE NO QUARTO?NA SALA ONDE A COR VERMELHA ERA SOBERANA...VERMELHO NAS ALMOFADAS K TE RODEAVAM O CORPO, VERMELHO NOS ANTURIOS ATADOS POR UMA FITA VERMELHA, A CARPETE VERMELHA, VERMELHO NAS VELAS MAL ARDIDAS...SERIA POR ISSO K NAO VI O SANGUE?DEITEI-ME A TEU LADO AGARREI A TUA MAO ESQUERDA, E APERTEI O TEU BRAÇO CONTRA O PEITO, COM A OUTRA MAO AFAGUEI-TE AS COSTAS AINDA QUENTES, O TEU CORPO LEVEMENTE TRANSPIRADO, CHEIRAVA A ROSAS...ROSAS VERMELHAS...ESTAVAS TAO LINDO HUGO...A PELE MACIA COMO A DE UM BEBE, A BARBA FEITA, TIVESTE ESSE CUIDADO? ENCOSTEI O MEU ROSTO AO TEU...O TEU CABELO COMPRIDO CHEIRAVA TAO BEM...K SHAMPOO USASTE? NUNCA IMAGINEI REGREDIR NO TEMPO E VER-TE COMO KUANDO ERAS O MEU MENINO...IMOVEL, MAS TAO SERENO...TAO BELO...FALEI-TE AO OUVIDO...ENQUANTO TE FIZ FESTINHAS...SEI K FALEI MT...MAS NAO ME LEMBRO DO K TE DISSE...SÓ ME LEMBRO DO SILENCIO VERMELHO...APENAS QUEBRADO PELO BARULHO DA VENTOINHA...SENTI FRIO...E PARECEU-ME K TU TBEM O SENTIAS E DESLIGUEI A VENTOINHA...PARECEU-ME K O TEU CORPO ARREFECIA...TODA A SALA VERMELHA CHORAVA...



Apenas me deixam vir ver-te






Maria Alice Oliveira

Hugo Afonso Tavares de Oliveira 

24/08/1973 - 24/07/2005